Que é desse cachorro?
Que é desse cachorro? Cuja imagem e desejos que evoca já findaram ao passar dos dias, tendo ele retornado para um lugar recôndito e que não há, lugar que é pura memória de sensações?
Que é desse cachorro? Que aquece, que acolhe, que faz querer, que quase cura, que aplaca, que insinua preenchimento, que seduz de afetos, que não indaga, que só oferece sem mais. Sem quê. Sem quando. Para nada.
Que é desse cachorro? Que tranquiliza. Que adia a dureza de ter que ser. Tão perfeito porque tão irreal. Tão esperado porque não feito para chegar. Tão pacífico porque moldado ao sabor do incognoscível. Tão para sempre porque feito para não ser. Tão encantador porque irretratável aos olhos do mundo.
Não late. Não anda. Não lambe. Não baba. Só pulsa, repleto de porvir. Só se insinua, baço, impreciso, quase lá, mas não.
E o silêncio do não concreto, do não feito coisa, do não reduzido ao real seduz, encanta, alimenta a alma dos que ainda enxergam o que, de tão visto, o mundo já não mais percebe.
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